Confie no Senhor e faça o bem; assim você habitará na terra e desfrutará segurança.
Deleite-se no Senhor, e ele atenderá aos desejos do seu coração.
Entregue o seu caminho ao Senhor; confie nele, e ele agirá:
Ele deixará claro como a alvorada que você é justo, e como o sol do meio-dia que você é inocente.
Descanse no Senhor e aguarde por ele com paciência; não se aborreça com o sucesso dos outros, nem com aqueles que maquinam o mal.
Evite a ira e rejeite a fúria; não se irrite: isso só leva ao mal.
Pois os maus serão eliminados, mas os que esperam no Senhor receberão a terra por herança.
Um pouco de tempo, e os ímpios não mais existirão; por mais que os procure, não serão encontrados.
Mas os humildes receberão a terra por herança e desfrutarão pleno bem-estar.
Salmos 37:3-11

Quem são estes bem aventurados, muitíssimo felizes, a quem será dada a terra por herança e de que terra se trata? “São os novos céus e a nova terra” (que João testemunhou em Apocalipse 21.1).

Quais são as virtudes, os gestos, as atitudes, as palavras ditas e não ditas dos que são humildes? Como reagem e como não reagem às circunstâncias da vida?

E o que significa exatamente ser humilde? O que cabe e o que não cabe nesta palavra? Que benefícios há, quais riscos assume, para o que exatamente ela aponta, isto é, quais promessas ela garante, e também quais as perdas implicadas na postura humilde?

Parece-nos às vezes simples entender o que tudo isto significa, mas nem sempre é assim.

A Bíblia tem muito a dizer a respeito da humildade e da falta dela a partir do exemplo de vida de alguns personagens, por exemplo, o Rei Herodes Agripa I. Foi ele quem mandou matar à espada Tiago e que mandou prender também a Pedro, conforme lemos em Atos 12. O texto bíblico de Atos narra também o triste episódio da morte de Herodes dizendo que ele estava cheio de ira contra o povo de Tiro e de Sidom. Este povo, fenício (Atual Líbano), não estava sujeito à jurisdição de Herodes, porém, ele dependia do produto das terras da Galiléia para sobreviver e, ao que parece, Herodes havia cortado o suprimento.

Então, numa audiência marcada num dia festivo em que Herodes homenageava Cláudio César, diz o texto que ele estava em seu trono, vestindo seus trajes reais, e ao discursar o povo gritou: é voz de deus e não de homem! E diz o texto que Herodes não glorificou a Deus, mas aceitou esta ovação, este louvor, o que lhe trouxe um terrível castigo divino: ali mesmo ele foi ferido e morreu comido por vermes. Porque não glorificou a Deus!

Aplicação: Experiência esta que nos ensina que o oposto à humildade, isto é, a arrogância, o orgulho, pode trazer conseqüências dolorosas à vida. Aliás, o livro de provérbios nos ensina que “Antes da sua queda o coração do homem se envaidece, mas a humildade antecede a honra” (Pv 18.12).

Herodes personifica aqui o sujeito que tem o ego-inflado (eu-inflado). Aquele que pensa a respeito de si mesmo mais do que convém. Que considera a si mesmo mais do que deveria considerar.

Ilustração: lenhador…

Como no caso daquele sujeito que se apresentou para um emprego de lenhador gabando-se de ser o melhor lenhador do mundo. Então, o entrevistador olhou bem para ele, para a sua figura modesta, limitada, já aparentando certo cansaço, trazendo em seu rosto as marcas dos anos de muito trabalho, então, meio desconfiado lhe perguntou:
– Onde o senhor já trabalhou como lenhador?
– No Sahara!
– Mas o Sahara é um deserto!
– E o lenhador responde: agora é!

Aplicação:

O que a Bíblia ensina é: “… ninguém tenha de si mesmo um conceito mais elevado do que deve ter; mas, ao contrário, tenha um conceito equilibrado, de acordo com a medida da fé que Deus lhe concedeu” (Rm 12.3).

Um dia alguém disse: Não sou o que deveria ser (tenho falhas…); não sou o que espero ser no mundo por vir (ainda estou caminhando), mas, apesar disso, não sou mais o que costumava ser (estou sendo dia a dia transformado), e pela graça de Deus, sou o que sou.

Ilustração: a lição dos galhos…
Herodes não compreendeu a lição dos galhos, lição esta que também falta muitas vezes a nós. Quais são os galhos que mais se abaixam numa árvore, os que estão mais carregados ou os que estão menos carregados?

Numa árvore frutífera, os galhos carregados são os que mais se abaixam. Isto nos ensina que a humildade não é sinônimo de privação, de recursos limitados e de trapos como vestes. Humilde não é quem tem falta de algo, quem tem falta de algo está necessitado. Mas humilde é aquele que tem e ainda assim se abaixa, reconhecendo que tem tudo o que tem porque tudo o que tem de fato lhe foi dado.

“Assim como nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo se não permanecer na árvore, na videira. Assim também vocês não podem dar fruto se não permanecerem em mim” (João 15.4b).

O humilde reconhece que precisa permanecer no Senhor e que todos os seus frutos foram dados por Ele. Os que caminham assim são muitíssimo felizes e eles, com certeza, receberão os novos céus e a nova terra do Senhor e com Ele habitarão.

2º) A Bíblia também nos ensina sobre humildade com a vida de José…
Embora tendo sido negociado como mercadoria, como carga, e tudo isso sendo ainda jovem, com apenas 17 anos, e sendo vendido ao Egito na condição de escravo e pelas mãos de seus próprios irmãos que o invejavam e que não o toleravam, nem suportavam o convívio com ele, e após passar anos em prisões e sendo vítima de calúnias, José, por providência e revelação divina, coisas que apenas Deus faz, é agraciado com um dom de interpretar sonhos.

Faraó sonha, se aflige e se angustia por não saber o seu significado e é José quem o interpreta dizendo: haverá 7 anos de fartura seguidos de 7 anos de extrema fome. Procure agora o Faraó um homem criterioso e sábio e coloque-o no comando da terra do Egito para que ele providencie reservas para os anos de fome que virão a fim de que a terra não seja arrasada pela fome. E Faraó responde: “Será que vamos achar alguém como este homem, em quem está o espírito divino?”

José, então, é colocado como o segundo homem mais importante do mais importante império, o egípcio. E passados os anos de fartura, chegam os anos de fome, PORÉM na terra do Egito havia alimento.

Os seus irmãos, então, descem àquela terra para comprar alimento. Eles são levados à presença do administrador, o próprio José, e o texto de Gênesis 45 nos diz que “a essa altura, José já não podia mais conter-se diante de todos os que ali estavam, e gritou: ‘façam sair a todos!’ E ele se pôs a chorar tão alto que os egípcios o ouviram, e a notícia chegou ao palácio do Faraó. Então disse José a seus irmãos: ‘Eu sou José! Meu pai ainda está vivo?’ Mas os seus irmãos ficaram tão pasmados diante dele que não conseguiam responder-lhe. ‘Cheguem mais perto’, disse José a seus irmãos. Quando eles se aproximaram, disse-lhes: ‘Eu sou José, seu irmão, aquele que vocês venderam ao Egito! Agora, não se aflijam nem se recriminem por terem me vendido para cá, pois foi para SALVAR VIDAS que Deus me enviou adiante de vocês. Já houve dois anos de fome na terra, e nos próximos cinco anos não haverá cultivo nem colheita. Mas Deus me enviou à frente de vocês para lhes preservar um remanescente nesta terra e para salvar-lhes a vida com grande livramento. Assim, não foram vocês que me mandaram para cá, mas sim o próprio Deus’”.

Bem diz o texto de provérbios: “A recompensa da humildade e do temor do Senhor são a riqueza, a honra e a vida” (Pv 22.4). Foi tudo isso que José colheu: riqueza, honra e, principalmente, vida.

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Aplicação
José, em seu exemplo, nos ensina que a humildade é peculiar, é própria daquele que tem no coração o temor de Deus. José poderia ter se vingado de seus irmãos, poderia tê-los submetido ao mesmo sofrimento pelo qual ele passou (prisões, privações e calúnias), poderia tê-los interrogado pedindo explicações, justificativas, razões que justificassem o que lhe haviam feito, por menos plausíveis que fossem, mas que pudessem convencê-lo a um ato de misericórdia, no entanto, surpreendentemente, José lhes disse: “não se aflijam nem se recriminem por terem me vendido para cá, pois foi para salvar vidas que Deus me enviou ADIANTE de vocês”.

O que nos faz pensar, irmãos, que tudo aquilo que acontece na vida daquele que teme a Deus e a Ele pertence, que vive para agradá-lo em tudo, não está debaixo do controle e da direção do Senhor? O que nos faz pensar que ainda somos vítimas de um suposto acaso? O que nos faz crer que as coisas boas aconteceram foram resultados de estarmos no lugar certo e na hora certa como se não tivéssemos sido dirigidos para este lugar certo na hora certa?

Por que nos afligimos tanto diante de tantas coisas quando a Palavra de Deus nos diz que este Deus não dorme, nem sequer cochila, mas como uma sombra, assim Ele permanece ao nosso lado. E mais, é este Deus quem nos diz que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que o amam (Rm 8.28).

José não se preocupou em discernir as razões de tanto ódio, o porquê da vida ter lhe reservado tantas dores e infortúnios, antes, em tudo aquilo que estava lhe acometendo, José, com humildade preocupou-se em discernir o que Deus estava fazendo, o que Deus queria lhe mostrar, aonde Deus queria levá-lo, o que Deus queria que ele entendesse.

Bem diferente, aliás, de seus irmãos que, quando ouviam os sonhos de José, o acusavam, o repreendiam, o hostilizavam, mas por nenhum momento se permitiram refletir e considerar o que Deus desejava lhes mostrar.

Aplicação
A história de José, principalmente neste último capítulo, nos ensina que a humildade não é uma virtude a ser cultivada apenas em nossa relação com o próximo, mas também em nossa relação com Deus. Quando Jesus diz: bem aventurados os que são humildes, Jesus se refere não apenas à humildade pertinente em nossos relacionamentos sociais, entre parentes, entre amigos e entre colegas de trabalho, mas também e, principalmente, em nosso relacionamento com Deus.

E em nosso relacionamento com Deus, a nossa atitude não deve ser outra senão aquela descrita na carta de Pedro: “Portanto, humilhem-se debaixo da poderosa mão de Deus, para que ele os exalte no tempo devido” (1 Pe 5.6). Foi esta verdade que José experimentou e que nós também podemos experimentar.

Ilustração:
Eu me lembrei mais uma vez de Corrie Tem Boom, uma serva do Senhor que sobreviveu à perseguição e ocupação nazista na Holanda durante a Segunda Guerra. Corrie não compreendia muitos fatos e eventos de sua vida, muitos dos quais lhe traziam pesar no coração, entre eles, o fato de não ter ainda se casado.

A resposta veio quando aos 51 anos uma mulher bateu à porta de sua casa pedindo esconderijo. Ela era judia e estava fugindo de soldados alemães. Corrie a recebeu e a partir daquela primeira hóspede nasceu uma rede de lares que escondiam judeus, esquema do qual Corrie liderava (uma senhora de 51 anos). E foi então que, depois de muitos anos, ela entendeu quais eram os planos que Deus tinha para a sua vida, planos para salvar vidas da fome do pão e da fome de vida.

Quando a guerra terminou, Corrie passou a ser convidada para dar palestras a respeito da sua história e da sua experiência, inclusive no campo de concentração quando a polícia alemã lhe surpreendeu, então lhe perguntaram se ela não ficava orgulhosa com tantos elogios que recebia. Ela respondeu que recebia os elogios como se fossem flores perfumadas. Os colocava num vaso e humildemente dedicava a Deus um lindo e perfumado buquê.

Aplicação: vale a pena confiar e aceitar com humildade fatos e eventos que nos acontecem, porque Deus definitivamente sabe o que faz, Ele está no controle. E aquele que entrega tudo a Ele é muitíssimo feliz.

3º) Ainda que haja outros exemplos de homens e mulheres que andaram com humildade perante o Senhor, como Ana, como Davi, como Ester e ainda outros, nenhum exemplo se comparável ao exemplo do Senhor Jesus.

 Primeiramente, porque Jesus ao nascer como um pequeno bebê, indefeso e vulnerável, não tinha a seu dispor um hospital e uma equipe médica competente, não tinha uma casa para lhe acolher ou uma simples cama aquecida, mas sim um estábulo, um lugar simples, rudimentar, sujo, lugar onde os animais eram guardados. Foi ali que Jesus nasceu sob os riscos de contaminação;

 E como se não bastasse, no estábulo Jesus foi colocado sobre uma manjedoura, onde o alimento de animais como o cavalo e o gado era colocado;

 Diz o texto também que apenas três pessoas vieram saudar-lhe. Curiosamente, três magos, três místicos do oriente. Nenhum dos seus anos apareceu, ninguém do seu povo que, ao que se pensava, tanto o aguardava;

 Assim cresceu o menino Jesus, com um estilo de vida simples e em simplicidade ele iniciou o seu ministério;

 Chamou para si homens simples, carentes, com profissões pouco reconhecidas na sociedade. Quando alguém se aproximou querendo segui-lo por onde quer que Ele fosse, Jesus respondeu: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça” (Mt 8.20);

 Entrou em Jerusalém montado sobre um jumento, animal de carga, e recebeu como resposta do seu amor: cravos nas mãos, uma coroa de espinhos, vergonha, vexação, humilhação:

 Mas Ele venceu e está com o Senhor nos céus…

Aplicação
Eu não ousaria usar uma coroa de ouro na terra onde o meu Senhor usou uma coroa de espinhos (Spurgeon).

Paulo escrevendo aos Colossenses nos ensina a respeito de quais devem ser as vestes do nosso caráter, do nosso coração, do nosso ser:
“Portanto, como povo escolhido de Deus, santo e amado, revistam-se de profunda compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência” (Cl 3.12).

É o nosso Jesus quem nos ensina que ser humilde é ter um coração agradecido. É contentar-se com aquilo que tem e ver no que tem não o “pouco”, mas a providência e misericórdia divina. O humilde é grato, ele não exige, ele não cobra, ele não vai tirar satisfações, ele é pacífico e ele entrega tudo a Deus a quem ele confiou a sua própria vida. Ele sabe que a sua vida está segura nas mãos do Pai.

Com o seu exemplo de vida, é Ele quem nos mostra que a humildade nos faz ver tesouros maiores do que os tesouros desta vida. São os tes
ouros do reino.

E por tudo isso seremos bem aventurados, seremos muitíssimos felizes e herdaremos os novos céus e a nova terra, e para sempre habitaremos com o Senhor.

Pr. Renato Costa